Conversa difícil!


Conversando com um colega engenheiro civil (que não é da nossa área prevencionista) fiquei preocupado com a forma como ele lida com a questão da Segurança do Trabalho.

No entendimento dele a empresa deve jogar conforme as regras do jogo, ou seja, ele concorda cem por cento que se houve prejuízo ao trabalhador a empresa deve indenizá-lo com todo o rigor estabelecido pela lei, porém ele entende que em algumas situações talvez seja um bom negócio correr o risco de deixar o trabalhador ter alguma consequência, se o retorno for muito superior ao valor a ser reparado.

Contou que em uma obra que estava "tocando" era necessário entregar tudo em um prazo extremamente curto e no caso de atraso a multa contratual era elevadíssima e poderia até levar a empresa à falência se tivesse o tal atraso, então analisou a situação e na última semana "liberou" todos os funcionários de seguirem os procedimentos de segurança para agilizar o serviço.

Segundo ele valeu a pena correr o risco, pois só teve um caso de um corte no braço e conseguiram entregar no prazo e completou afirmando que caso tivesse ocorrido algo grave ele iria arcar com as consequências, pois em um jogo temos sempre a possibilidade de perder.

Fiquei estarrecido com o modo de pensar pois deveria ser óbvio que a saúde e a vida dos trabalhadores devem sempre prevalecer em relação a um retorno financeiro.

Na verdade, quando ele falou em jogo me veio à mente a seguinte imagem: ele jogando dados, porém os dados eram feitos de pessoas.

Nestas situações é que fica claro a necessidade dos institutos do embargo e da interdição, pois para quem expõe o trabalhador a situações de grave e iminente risco são os mecanismos corretos para preservar a vida.

Porém depois de alguns segundos enfurecido com aquele modo de pensar, lembrei dos meus primeiros anos como engenheiro civil e percebi que a minha mentalidade não era tão diferente, o objetivo era concluir a obra e tentei analisar o que me fez mudar o modo de pensar. Não foi difícil identificar: foi o conhecimento sobre o tema. Hoje tenho uma visão prevencionista que foi moldada com leitura e anos atuando com a prevenção, ou seja, precisamos difundir a informação da nossa área, só desta forma, aos pouquinhos, vamos ajudar a conseguir mudanças para as futuras gerações.

Prof. Mário Sobral Júnior – Engenheiro de Segurança do Trabalho